PPES_ANO_2010_POEMAS_MELANCOLIA
PROJETO #EntreVersos_2010
REDAÇÃO #EV3
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DO ABISMO AO CÉU: A ESPIRITUALIDADE COMO ÂNCORA
Em um universo poético marcado por questionamentos existenciais e pelo peso da melancolia, surge com força um fio condutor que não se rompe: a busca pelo divino. A espiritualidade nos poemas de Pedrim não é um acessório temático ou uma convenção literária; é uma âncora literal em meio ao caos interior, uma corda lançada entre o abismo do desespero e o céu da esperança.
O abismo é descrito de muitas formas: é o vazio (“Um vaso sem água” – #06), é a queda (“Quando na curva eu tombar” – #32), é o sentimento de insignificância (“Sou só mais uma garrafa pet” – #03). É o fundo do poço emocional, local onde muitas identidades se desfazem e as certezas se evaporam. Mas é justamente desse lugar escuro que o olhar se volta para cima.
“Senhor, tem misericórdia” (Poema #06)
“Meu Deus eu quero traspassar estas colunas” (Poema #25)
“Entre planetas existe um vácuo denso... quero ver-te arrolar por entre eles” (Poema #08)
A relação com Deus, aqui, não é serena ou contemplativa. É suplicante, urgente, quase física. O poeta não pede bens materiais ou milagres distantes; ele pede presença. Pedir misericórdia é, antes de tudo, pedir para não ser abandonado na própria dor. É um grito de quem sente a queda iminente e busca um ponto fixo para se segurar.
Essa espiritualidade também é corporificada. No poema #25, “Estrelas Revelam”, a experiência religiosa é descrita com imagens sensoriais intensas: roupas, visões restauradas, fogo, água, sangue, incenso. Não se trata de uma fé apenas intelectual, mas de uma que toca, purifica e transforma o corpo e o ambiente. O divino intervém no mundo material, tosquiando a “mente cabeluda”, lavando com água e vento, preenchendo o templo que é o próprio corpo.
É significativo que alguns dos poemas de tom mais sombrio terminem com uma virada espiritual. Em “Quando eu me desestruturar” (#32), após descrever a queda, a escuridão e a confusão, o eu lírico encontra saída na imagem de uma criança nos braços do Pai. A solução, portanto, não está na força adulta, mas na rendição e na confiança. A espiritualidade se torna, então, um caminho de regresso a um estado de inocência e proteção.
No entanto, essa fé não apaga as dúvidas. O poema #15, “Andanças e Caminhadas”, é um diálogo angustiado: “Como permanecer em Sua Presença se constantemente minha tendência me afasta de Ti?”. A espiritualidade de Pedrim é honesta: ela convive com a fragilidade humana, com a tendência ao desvio, com o medo da distância. Essa tensão entre a busca e o afastamento é o que a torna humana e profundamente identificável.
Por fim, a espiritualidade nestes poemas também é coletiva e projetada no futuro. No poema #33, a conquista do mundo não é um projeto de glória pessoal, mas uma missão que começa com “Toda Glória seja a Cristo”. A âncora da fé, que antes segurava o indivíduo à beira do abismo, agora o impulsiona para uma missão no mundo.
Ler esses versos é testemunhar uma jornada vertical. Do fundo do poço, o olhar se eleva, procurando um ponto de luz. E mesmo quando a luz não é totalmente clara, o simples ato de procurá-la já é um movimento de sobrevivência e sentido. Pedrim nos mostra que, às vezes, a única coisa que nos impede de sermos engolidos pelo abismo é uma âncora lançada em direção ao céu.
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Autor: Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)
Projeto: #EntreVersos_2010
Próxima redação: #EV4 → Retratos do invisível: identidade, gênero e sociedade
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Aguardando o próximo comando. Para onde vamos? #EV4, ou para outra camada do projeto?
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