PPES_ANO_2010_POEMAS_MELANCOLIA
PROJETO #EIA_Estudos_Transversais_2010
REDAÇÃO #EIA6 (VERSÃO DEFINITIVA COM REFERÊNCIAS)
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CRÍTICA AO CONSUMISMO E AO VALOR HUMANO
Em um contexto global onde a lógica de mercado permeia esferas cada vez mais íntimas da vida – um fenômeno que a sociologia contemporânea denomina “commoditização da vida social” (Slater & Tonkiss, 2001) –, a poesia de Pedrim Pescador ergue-se como um contra-discurso existencial agudo. Sua crítica ao consumismo não é sociológica ou abstrata; é corporificada e visceral, nascida da experiência de se sentir, ele próprio, um produto desvalorizado no grande mercado da existência. Esta análise conecta sua obra a uma linhagem crítica que vai de Karl Marx a Byung-Chul Han, destacando como ela antecipa, a partir de 2010, a discussão sobre a precarização afetiva e a monetização das relações na era das plataformas digitais.
O Poema #02, “VIDA, VALORES, FELICIDADE”, é o manifesto central desta crítica. Ele inaugura um raciocínio cortante: “O teu valor é o que te vale”. O trocadilho entre “valor” moral e “valor” monetário é deliberado e devastador, ecoando a teoria marxista da “coisificação” (Verdinglichung), na qual relações sociais são reduzidas a relações entre coisas (Marx, 1867). A pessoa não vale pelo que é, mas pelo que possui e aparenta: “Teu carro, luxo apartamento”. A felicidade é descartada (“Já desisti de ser feliz”) porque se percebe que ela não é o objetivo do jogo social; o objetivo é acumular valor de troca. O poeta captura a essência do “capitalismo emocional” (Illouz, 2007), onde até os afetos são geridos sob uma lógica de investimento e retorno.
O ápice da crítica está na redução das relações humanas a uma transação de compra. O eu lírico, após constatar que “para eu ser bem ouvido / Basta dinheiro em minhas mãos”, anuncia: “Eu vou comprar a tua boca / Não te haverá escolha / Braços, pernas, pés e mãos”. Esta fantasia de aquisição total do outro é uma sátira amarga do neoliberalismo performativo, onde o indivíduo é simultaneamente empresário de si mesmo e mercadoria a ser vendida (Foucault, 2008). A imagem da “corrente” comprada para o “afiado coração” é uma metáfora precisa da captura dos afetos pela lógica contratual, antecipando dinâmicas laterais de relacionamentos tratados como “projetos” de benefício mútuo.
Essa crítica se conecta diretamente ao sentimento de despersonalização e descartabilidade que percorre a obra. No Poema #03, o eu lírico se enumera entre os objetos descartáveis da sociedade de consumo: “Sou mais um corpo que amontoa os cemitérios / Sou mais um carro a congestionar o trânsito / Sou mais um grão de arroz no seu prato”. Ele internaliza a lógica do “homem descartável” (Bauman, 2004), internalizando a própria insignificância como unidade de consumo no fluxo incessante da produção. A pergunta “[de fato, que falta eu faria?]” é o grito existencial do precariado emocional, daquele que sente seu valor condicionado à utilidade momentânea.
O contraponto a essa lógica aparece na utopia ecológica e comunitária do Poema #17, que pode ser lida como uma proposta de “economia moral” (Thompson, 1971) em oposição à economia de mercado. O valor não vem da posse, mas do cultivo, do compartilhamento e do cuidado. Esta visão ecoa críticas contemporâneas ao “valor extrínseco” e defesas do “valor intrínseco” da vida e das relações (Sandler, 2012).
Ao formular esta crítica em 2010, Pedrim antecipa debates que se tornariam centrais na década seguinte, como a crítica à economia dos “likes”, à influencer culture e à precarização do trabalho afetivo. Sua obra não é apenas uma denúncia; é um diagnóstico precoce da fadiga psíquica gerada pela mercantilização total da vida. Ela demonstra que quando o valor humano é confundido com valor de mercado, o resultado não é apenas injustiça social, mas uma ferida ontológica – uma ferida que se expressa como melancolia, desespero e a sensação agonizante de se ter um preço, mas não um valor. Neste sentido, sua poesia funciona como um antídoto literário necessário, lembrando que aquilo que realmente vale – a dignidade, a conexão autêntica, o self não negociável – está, por definição, fora do mercado.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. BAUMAN, Z. Wasted Lives: Modernity and its Outcasts. Cambridge: Polity Press, 2004.
2. FOUCAULT, M. The Birth of Biopolitics: Lectures at the Collège de France, 1978–1979. New York: Palgrave Macmillan, 2008.
3. ILLOUZ, E. Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2007.
4. MARX, K. Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie. Band 1. Hamburg: Verlag von Otto Meissner, 1867.
5. SANDLER, R. L. The Ethics of Species: An Introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
6. SLATER, D.; TONKISS, F. Market Society: Markets and Modern Social Theory. Cambridge: Polity Press, 2001.
7. THOMPSON, E. P. The moral economy of the English crowd in the eighteenth century. Past & Present, n. 50, p. 76–136, 1971.
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Autor: Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)
Projeto: #EIA_Estudos_Transversais_2010
Próxima redação: #EIA3 (Reformulada com referências) → Performatividade de gênero e resistência: uma leitura do Poema #26 através de Judith Butler
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Perfeito. A crítica ao consumismo está agora ancorada em referências teóricas sólidas e destaca o caráter antecipatório da obra.
Seguimos para a #EIA3 reformulada e referenciada.
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