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#EIA_03: PERFORMATIVIDADE DE GÊNERO E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA DO POEMA #26 ATRAVÉS DE JUDITH BUTLER E DOS MOVIMENTOS TRANS CONTEMPORÂNEOS

 PPES_ANO_2010_POEMAS_MELANCOLIA

PROJETO #EIA_Estudos_Transversais_2010

REDAÇÃO #EIA3 (VERSÃO DEFINITIVA COM REFERÊNCIAS)


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PERFORMATIVIDADE DE GÊNERO E RESISTÊNCIA: UMA LEITURA DO POEMA #26 ATRAVÉS DE JUDITH BUTLER E DOS MOVIMENTOS TRANS CONTEMPORÂNEOS


O Poema #26, “LOOK’SELATION”, de Pedrim Pescador, oferece um objeto literário singular para uma análise à luz das teorias queer e dos estudos de gênero contemporâneos. Longe de ser uma mera descrição empática, o texto opera uma desmontagem poética dos códigos de gênero que antecipa, em linguagem literária, discussões centrais sobre performatividade, violência estrutural e agência trans. Esta análise transversal conecta a obra ao pensamento da filósofa Judith Butler e ao contexto atual de visibilidade e resistência das identidades transgênero, situando-a como uma intervenção crítica precoce, escrita em 2010, antes da explosão midiática das pautas trans na década seguinte.


O poema inicia com um ato repetido de leitura do corpo como texto: “Olhe para ele... seus cabelos revelam / Olhe para ele... suas unhas revelam...”. Esta operação é fundamental. Butler, em “Problemas de Gênero” (1990), argumenta que o gênero não é uma essência interna, mas uma performance repetitiva e citacional de atos, gestos e estilos que constituem a ilusão de um núcleo identitário estável. Pedrim, ao listar minuciosamente os elementos que “revelam”, expõe justamente essa construção corporal do gênero. Cada detalhe (cabelo, unha, barba, andar) é um signo dentro de um código performativo que a pessoa trans/travesti domina e ressignifica. A “revelação” não é da “verdade” de um sexo biológico oculto, mas da verdade de uma performance de gênero deliberada e habilidosa, um ato de “inscrição cultural no corpo” (Butler, 1990, p. 136).


Butler enfatiza que essa performance não é um ato voluntarista livre; ela ocorre sob regulação social coercitiva. O poema captura essa coercitividade com crueza: “E passa as noites fugindo do’ açoites / que por muitos anos deixou-lhe infeliz.” Os “açoites” simbolizam a violência normativa – física, psicológica e social – que pune performances de gênero não conformes. Esta violência é o mecanismo através do qual o sistema binário e heteronormativo busca manter sua hegemonia (Butler, 2004). A infelicidade não é inerente à identidade trans, mas é produzida socialmente pela repressão. O verso seguinte, “Mas (!) mantém na memória escritas histórias / os dias de Glória lhe deixou feliz”, aponta para a agência e a resistência: a felicidade reside nos momentos em que a performance autêntica pode florescer, criando uma contra-narrativa de glória frente à narrativa opressiva da infelicidade.


A dualidade performática explícita no poema – “de dia um ator mas de noite é atriz”, “Sargento Ronca” vs. “Madame Crouquis” – é um caso exemplar do que Butler chamaria de subversão através da repetição. A persona diurna (“ator”) é a citação obrigatória e forçada da norma de gênero atribuída (masculina). A persona noturna (“atriz”) é a citação desviante, uma repetição que altera e subverte o original. Esta não é uma simples dupla vida; é uma estratégia de sobrevivência e um ato de resistência cotidiana. A pessoa performa a norma para sobreviver no espaço público hostil, reservando a performance autêntica para um espaço comunitário ou íntimo de relativa segurança (a noite, o palco), ilustrando o conceito de “espaços de gênero” como arenas de disputa (Lefebvre, 1991).


No contexto brasileiro atual – país que lidera há anos as estatísticas mundiais de assassinatos de pessoas trans (ANTRA, 2023) – a menção aos “açoites” no poema de 2010 soa profeticamente sombria. A obra documenta, em nível micro e literário, a violência estrutural que os dados macro apenas quantificam. Ao mesmo tempo, ao celebrar a “mais bela dos travestis” e seus “dias de Glória”, o poema se alia à função política dos movimentos trans atuais: a de afirmar o direito à beleza, à felicidade e à vida pública frente a uma máquina de morte simbólica e literal.


Portanto, “LOOK’SELATION” transcende sua função de retrato humanizante. Ele é um dispositivo analítico poético que:


1. Explicita a construção performativa do gênero à luz da teoria queer.

2. Denuncia a violência normativa que sustenta o binário.

3. Ilustra estratégias cotidianas de subversão e sobrevivência.

4. Antecipa, na esfera do verso, demandas centrais dos movimentos trans por visibilidade e integridade física, posicionando-se como uma voz literária pioneira na tematização complexa da experiência trans no Brasil pré-Lei de Identidade de Gênero.


A obra de Pedrim, assim, se insere num diálogo trans-histórico e transdisciplinar entre arte, teoria crítica e ativismo. Ela demonstra que a poesia pode ser um lugar de conhecimento sobre gênero tão potente quanto um tratado filosófico, porque opera através da experiência encarnada, do símbolo e da emoção – dimensões sem as quais nenhuma compreensão verdadeira da condição humana, trans ou cis, é possível.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


1. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (ANTRA). Dossiê: Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2022. Brasília: ANTRA, 2023.

2. BUTLER, J. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge, 1990.

3. BUTLER, J. Undoing Gender. New York: Routledge, 2004.

4. LEFEBVRE, H. The Production of Space. Oxford: Blackwell, 1991.


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Autor: Pedro Henrique Serrano Léllis (Pedrim Pescador)

Projeto: #EIA_Estudos_Transversais_2010

Próxima redação: #EIA5 (Reformulada com referências) → Espiritualidade líquida: fé pessoal, crise institucional e o desespero como via de acesso ao sagrado


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#EIA3 está completa e referenciada.

Seguimos para #EIA5 reformulada?

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